Abandonado, Canecão chega aos 50 em ruínas

No coração da Zona Sul carioca, ao lado de dois shopping centers, uma construção abandonada chama atenção de quem passa. Sua fachada, hoje pichada e depredada, já estampou os nomes das maiores estrelas da cultura nacional e internacional, e por décadas foi considerada a casa da música popular brasileira.

Poderia ser mais um espaço esquecido como tantos outros existentes, em Botafogo ou em qualquer ponto do Rio de Janeiro. Mas não. Este é – ou era – o Canecão, que completaria cinquenta anos de funcionamento nesta sexta-feira, 23 de junho de 2017.

Fechado há quase sete anos, desde que a Universidade Federal do Rio de Janeiro conseguiu na justiça o direito de retomar o espaço de 116 mil metros quadrados alugado ao empresário Mário Priolli, fundador do Canecão, após mais de duas décadas de uma longa briga. O lugar, que foi um ponto de alegria e entretenimento no Rio, hoje agoniza publicamente, a olhos vistos.

Fachada do Canecão em 1971, anunciando o show de Elizeth Cardoso

Coincidentemente inaugurado em uma sexta-feira, 23 de junho de 1967, entre a sede do Clube de Regatas do Botafogo e o Solar da Fossa, o Canecão surgiu como uma cervejaria. O anúncio, publicado nos jornais da época (foto, acima) era ousado: O Canecão é tão importante que até o Pão de Acúcar vai ficar atrás dele”. E mais: “A partir das 19 horas de hoje estará funcionando a maior cervejaria do Brasil”.

Em seu interior, paredes brancas e um painel de 23 metros, representando a Santa Ceia e pintado por Ziraldo (foto, abaixo), ajudavam a compor a decoração, em meio aos estouros dos barris de chopp e dos acordes da Banda do Canecão, um conjunto de músicos que faziam parte da programação fixa. A transição de cervejaria a casa de shows aconteceu dois anos depois, quando Maysa, dirigida por Bibi Ferreira, apresentou um show que marcaria época, viraria um disco ao vivo e inauguraria uma tradição na cidade: as longas temporadas. E tudo começou com “Canecão apresenta Maysa”, em 1969.

O painel de Ziraldo, que estampou uma das paredes do Canecão entre 1967 e 1972 – Foto: reprodução

Reprodução da revista Amiga, de 13/10/1970

Naquele palco, baixo para os padrões, mas na altura ideal para os olhos de quem os assistia, garantindo uma intimidade público-artista que poucos lugares possuem, passaram temporadas históricas. Roberto Carlos chegou em 1970, e ano após ano ficava em cartaz durante meses. Em 1975, Chico Buarque & Maria Bethânia cantaram juntos e marcaram época, do jeito que está registrado no LP de mesmo nome. Em 1977, foi a vez de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho e Miúcha.

Do chique ao brega, todo mundo passava por lá, e é praticamente impossível listar todo mundo. Ao longo de 43 anos de funcionamento, todos os grandes artistas da MPB se apresentaram no Canecão: Caetano Veloso, Elis Regina, Rosana, Erasmo Carlos, Fagner, Zé Ramalho, Chitãozinho & Xororó, Emílio Santiago, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Elizeth Cardoso, Gal Costa, Elba Ramalho, a família Caymmi, Joanna, Tim Maia, Alcione, Clara Nunes, Ney Matogrosso, Rita Lee… e os internacionais também: James Taylor, Ray Charles, Billy Paul, Miles Davis, Astor Piazzola, Johnny Rivers, Chris Montez, Echo & The Bunnymen, Iggy Pop e até uma bombástica apresentação dos Ramones em 1992, que terminou em pancadaria.

A Banda do Canecão em 1968, ainda nos tempos de cervejaria

A acústica era considerada ruim, mas isso nunca foi um problema: artistas e público aprovavam. Uma casa eclética que era capaz de receber as mais variadas manifestações: o teatro, com “Brasileiro Profissão Esperança”, “Deus lhe pague”, “Os Saltimbancos”, “5 x comédia”; os bailes da pesada de Ademir Lemos (1946-1998) e Big Boy (1943-1977), a discoteca Tropicana de Nelson Motta, as pistas de patins e bailes de carnaval. E até mesmo o Moulin Rouge que, em 1972, durante uma reforma na matriz francesa, veio parar por aqui, com seu elenco. O resultado da passagem marcaria a arquitetura da casa para sempre: as paredes brancas foram pintadas de preto, e o painel de Ziraldo, coberto para sempre.

Gal Costa, no verão de 1996

Quem queria ser visto ou reconhecido, tinha que se apresentar por lá, fosse de forma espontânea ou não. Em 1985, Elymar Santos arriscou todas as suas fichas e alugou o Canecão. E deu certo: sua carreira, até então limitada a apresentações em bares e churrascarias, deslanchou. O novo rock brasileiro, que surgia na década de ’80, também fez história no Canecão: Lulu Santos, Marina Lima, Lobão, Blitz, RPM, Kid Abelha, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Legião Urbana, Ultraje a Rigor, Titãs, Engenheiros do Hawaii. Foi ali que Cazuza fez seus últimos shows, em outubro de 1988, convocando o Brasil a mostrar a sua cara e afirmando que o tempo não pára. E foi naquele palco que uma nova safra de vozes femininas ganhou mundo: Marisa Monte, Adriana Calcanhotto, Daniela Mercury, Cássia Eller, Ana Carolina e Zélia Duncan, entre tantos outros nomes.

Canecão em Maio de 2010: casa lotada - Foto: Fábio Vizzoni / Blog Música e Letra
Canecão em 2010, pouco antes de seu fechamento: casa sempre lotada

Responsável pela direção daquele show que mudou a história do Canecão, Bibi Ferreira foi a última artista a se apresentar oficialmente naquele palco, em 17 de outubro de 2010. De lá para cá, entre invasões e manifestações políticas, como o “Ocupa Canecão”, em 2016, muito pouco ou quase nada aconteceu: a promessa da UFRJ era devolver à população um centro cultural, mas só o que se viu até hoje foi o abandono. Mais um triste retrato do Rio de Janeiro, à espera de dias melhores.

Independente das questões judiciais ou de quem estava ou não estava com a razão, o Canecão faz muita falta na vida do carioca. E merece ser lembrado para sempre.

Alguns momentos de espetáculos no Canecão, registrados por Música e Letra:

Zélia Duncan e Simone (2006) - Foto: Fábio Vizzoni / Blog Música e Letra
Zélia Duncan e Simone (2006)
Orlando Morais e a Bateria da Mangueira (2006) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Letra
Orlando Morais e a Bateria da Mangueira (2006)
Maria Bethânia (2007) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Lerta
Maria Bethânia (2007)
Paulinho da Viola (2007) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Lerta
Paulinho da Viola (2007)
Ney Matogrosso (2008) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Lerta
Ney Matogrosso (2008)
Rita Lee e Roberto de Carvalho (2008) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Lerta
Rita Lee e Roberto de Carvalho (2008)
Caetano Veloso (2009) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Lerta
Caetano Veloso (2009)
Alcione (2009) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Lerta
Alcione (2009)
Billy Paul (2010) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Lerta
Billy Paul (2010)
Canecão (2010) - Foto: Fábio Vizzoni - Blog Música e Lerta
Canecão em dia de show: casa sempre lotada (2010)

One Reply to “Abandonado, Canecão chega aos 50 em ruínas”

  1. Bom dia meu lindo! Adorei o texto! Parabéns!
    Realmente é uma pena. Como tudo que é bom acaba nesse país! O nosso cinquentão também se foi. Fecharam por fechar! Não fizeram nada! Triste, muito triste. O cinquentão viverá sempre em nossa memória. Cultural!

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