Entrevista: Isabella Taviani

Isabella Taviani - Foto: Fábio Vizzoni

Por Fábio Vizzoni

No volante de um Maverick laranja, a carioca Isabella Taviani muda o trajeto de sua carreira e apresenta ao público, neste mês de setembro, o seu quarto álbum, “Meu coração não quer viver batendo devagar”. Lançado pela Universal Music, o novo CD é o retrato desta nova fase da cantora e compositora que, após sete anos de sucessos – “Foto Polaroid”, “Digitais”, “Castelo de farsa” e “Luxúria”, entre outros que a consagraram, através de interpretações rasgadas, passionais, fortes – abre espaço para uma nova safra, mais doce, tranquila e solar, mas sem perder a identidade. E nessa linha surgem deliciosas canções pop, baladas, rocks, um samba e a releitura de “Sob medida”, de Chico Buarque, que juntos dão forma ao sucessor de “Diga sim”, lançado há dois anos.

Mudanças sonoras, estéticas e conceituais

Sempre dirigida em disco por Torquato Mariano, Isabella apostou na diversidade de estilos dos produtores Jr Tostoi e Rodrigo Campello. O Resultado deste casamento musical é a fusão entre o rock e a MPB mais tradicional, caminhando lado a lado com as histórias de vida contadas através dos versos e vozes de Isabella: “Eu sempre trabalhei com o Torquato Mariano. Todos os meus discos foram com o Torquato, e era um processo natural que fosse com ele. Eu fui apresentada a esse mundo de gravadora pelo Torquato, com ele eu me sentia segura, é um amigo, uma pessoa por quem eu tenho o maior carinho, e eu comecei a perceber que essa Isabella nova queria aparecer, queria se mostrar mais, e era um processo natural que eu fosse arriscar e tentar trabalhar com outros produtores. Eu acho que o artista precisa também modificar, ressurgir, e ficar sempre buscando coisas novas, senão fica estagnado. Então era o momento da mudança. E eu comecei a pesquisar, eu queria uma sonoridade mais moderna, mais arrojada, daí a presença do (Jr) Tostoi, as guitarras do Tostoi, com um timbre ímpar, característico dele, mas ao mesmo tempo eu tinha medo do disco ficar muito pesado, com muitas guitarras, e não era o que eu queria. Daí veio a proposta do Daniel Silveira, que é o Diretor Artístico da Universal Music, minha gravadora, e disse: “Olha, o Rodrigo Campello trabalha com a Roberta Sá, com a Beth Carvalho, com a Fernanda Abreu”, então eu senti que ele ia trazer um pouco da MPB, assim, que eu gosto e que eu fico à vontade. Então eu resolvi juntar os dois e embarcar nisso” – conta, durante entrevista coletiva no Rio de Janeiro.

Um sonho foi o estopim para as cores do CD. Isabella conta que, em uma noite de dezembro de 2008, sonhou que dirigia um Maverick em alta velocidade pela Estrada do Joá (caminho que liga a Zona Sul do Rio de Janeiro à Barra da Tijuca, na Zona Oeste da cidade). E que, neste sonho, ela gritava: “Meu coração não quer viver batendo devagar”. A partir daí, nasceram a música, o título do disco, o conceito e até mesmo o encarte, onde a artista posa entre dois clássicos fabricados pela montadora Ford nos anos 70, um laranja e um azul claro. E ainda havia espaço para a memória afetiva: “Meu Avô tinha um Maverick” – revela.

Acostumada a compor sozinha, Isabella Taviani deixou a timidez de lado abriu espaço para novos parceiros e participações musicais. A primeira é de Zélia Duncan, que comparece em “Arranjo” e tocando bandolim em “Depois da chuva”, obra inédita de Isabella, Zélia e Jorge Vercillo: “O (Jr) Tostoi teve a ideia de chamar a Zélia pra gravar um bandolim, e eu disse: “como é que eu vou chamar a Zélia Duncan pra tocar um bandolim?”, e perguntei a ela: “Zélia, você topa?”, e ela disse: “agora!, mas, eu não toco bem bandolim…”, e ela de imediato treinou, foi tão bonitinho isso… e nessa música que ela tocou bandolim (“Depois da chuva”), é uma melodia minha que o Jorge (Vercillo) era apaixonado, eu não sabia muito o que dizer, e a gente tinha começado a fazer a letra, que não tinha definido ainda quando eu mandei a música pra Zélia ouvir, que era a faixa do bandolim que ela ia tocar. E eu mandei a música pra Zélia assim: “La ra ra ra ra ra ra rã, la ra ra ra ra rã…”, e ela fez a letra em dez minutos (…) então inaugurou aí a parceria dos três”.

A segunda participação é do cantor Toni Platão, de quem Isabella Taviani revela ser fã desde os tempos do grupo Hojerizah, nos anos 80: “Eu sou fã do Toni, eu vi o show do Hojerizah e eu acho a voz do Toni uma das melhores do país. E a música que eu tô cantando com ele, que se chama “Um vendaval”, tem uma pegada meio R&B, charme, e eu nunca compus uma música assim. Então eu queria uma participação que desse credibilidade a essa faixa, pra não ficar apenas uma faixa hit, porque se você escuta o disco, ela é hit, ela toca em qualquer rádio do Brasil muitíssimo bem, porque ela é dançante, porque ela é gostosa, porque ela tem uma letra que todo mundo vai repetir, vai cantar, e eu não queria somente isso, cair nesse perigo. Então eu queria um artista que desse credibilidade, e ninguém melhor que o Toni, que é um cara que eu admiro, cantou com aquela voz belíssima, e deu um charme em especial a essa faixa” – afirma.

Internet, Download e Pirataria

“Meu coração não quer viver batendo devagar” traz uma faixa exclusiva, o samba “Esquinas de Jacarepaguá”, disponível para download somente a quem comprar o CD original. Um diferencial para os fãs fiéis de Isabella, que se mostra favorável ao uso de novas mídias e redes sociais: “A ferramenta da Internet é fundamental. Eu comecei a entender o que é Twitter, o que é Facebook. Era um processo lento pra mim e extremamente prazeroso… até hoje eu não tive nenhuma dificuldade com ninguém, nunca sofri nenhum tipo de agressão, sou muito bem tratada, os fãs me adoram, a gente bate altos papos, converso, enfim… até algumas pessoas se aproximaram (…) nunca um lançamento de um disco meu foi tão comentado, principalmente por causa da Internet”. E completa: “Hoje em dia, o espaço que a gente tem pra videoclip é o You Tube”.

Sobre pirataria, Isabella não se opõe de todo, e explica: “A pirataria pro artista é bom, que ele vende shows, divulga teu nome. Uma dia desses minha Mãe estava numa banca pirata e disse: “meu filho, porque você tá vendendo o disco da minha filha, pirata?” e ele disse: “como é que é, minha senhora?”, e ela dizia: “minha filha aqui, ó” (apontando pro CD pirata), e me ligou, dizendo: “minha filha, olha o seu disco aqui, ó”, e eu disse: “Mãe, deixa isso pra lá, deixa ele vender”. Mas, assim como ele divulga isso como uma condição de vida, de sobrevivência, o pirata tira o emprego de muita gente dentro das companhias, dificulta você a ter mais produtos, contratar novos artistas, porque você não tem dinheiro pra isso”.

Mas, entre tantas modificações, uma é perceptível de imediato: Isabella Taviani está visivelmente mais bonita e feliz. Perguntada se tantas mudanças, musicais e visuais, poderiam assustar o seu público, Isabella revela: “Eu não tive medo em momento nenhum. Desde o início – inclusive eu até postei isso no meu blog – eu não tive medo, por que essa Isabella sou eu também. Eu tinha os cabelos bem compridos, eles batiam na cintura, encaracolados, e eu vivi uma mudança emocional muito grande, e eu cortei os cabelos. E pra mulher, a gente sabe o quanto o cabelo mexe com a gente… você quer saber se a mulher tá bem, olha o cabelo; se tá mudando, é o cabelo, é a primeira coisa. Então eu cortei os cabelos e rompi com aquele pacote. Aquela Isabella com aquele cabelo arrojado, aquele cabelo meio característico, a gente demorou pra criar aquele visual, mas ele não correspondia mais com a Isabella que tava surgindo, que tava reaparecendo, a Isabella que existiu muito lá atrás na minha vida. Então eu resolvi, planejei essa mudança (tô falando do cabelo porque eu acho que é emblemático, esse cabelo é emblemático pra mim, por que o anterior também era emblemático). Eu não preciso mais romper com nada. Eu me sinto serena, calma, tô feliz, tô mansa, tô muito bem amada, tô no melhor momento da minha vida, e eu não quero cortar mais esses cabelos, eu quero que agora esses cabelos cresçam, porque isso aqui sou eu, nesse momento da minha vida, agora. Mas, pelos comentários no meu blog, no meu site eles escutam um minuto de cada faixa, os comentários são os melhores possíveis, até agora eu não vi nenhum fã dizendo: “ah, eu quero aquela, rasgada…”. E muitos outros comentários, dizendo: “nossa, como você tá mais feminina, mais sensível, mais interessante”.

Cantora de personalidade, que foi duramente criticada no passado, quando comparada com outras vozes de sua geração, Isabella Taviani vive o seu melhor momento musical. E, comparações à parte, o seu 2009 lembra muito um antigo sucesso de Simone, lançado vinte anos atrás: “Que venha essa nova mulher de dentro de mim”.

Entrevista: João Pinheiro

João Pinheiro - Foto: Fábio Vizzoni

Em março de 2007, João Pinheiro (foto) entregou-me, em mãos, um exemplar do CD que ele acabara de gravar. De imediato, achei a proposta muito interessante: um cantor brasileiro interpretando sucessos de uma nigeriana – neste caso, a estrela Sade Adu.

De lá pra cá, muita coisa aconteceu: a mídia comentou – e, do Domingão do Faustão à Revista Vogue, muita gente aprovou (e adorou) a mistura de sons brasileiros de João canta sings Sade. Tanto que a badalada Vogue elegeu o álbum como “a trilha sonora do verão 2008″.

Quando o ciclo de vida do disco parecia entrar em sua reta final, uma surpresa: uma das faixas do CD foi parar na trilha da novela “Caras & Bocas”. “No Ordinary Love” virou um dos principais temas da trama de Walcyr Carrasco. E agora, na trilha internacional da mesma trama, João emplaca mais uma: “All about our love”. Um caso raro na história da MPB: afinal, não é todo dia que um músico independente consegue, cantando em inglês, ter duas canções de um mesmo trabalho em execução diária na TV, durante meses.

E é assim, em clima de comemoração, que João Pinheiro se apresenta esta quarta (12) no Teatro Rival, às 19h30. E foi, no meio da correria dos ensaios para o show, que ele conversou com Música & Letra:

Por Fábio Vizzoni

Ter uma música inserida na trilha de uma novela global é privilégio para poucos, e você emplacou… duas, na mesma novela! como é que você se sente em relação a isso? o que mudou depois que os versos de “No ordinary love” e “All about our love” foram parar, com destaque, em “Caras & Bocas”?

JOÃO PINHEIRO – É o sonho, de todo cantor, ter uma música na novela. Quando “No ordinary love” abriu, literalmente, o primeiro capitulo de “Caras e Bocas”, o coração veio a boca e, em seguida, a calmaria devolveu-me paz: “um sonho realizado, meu trabalho já está registrado na história da cultura popular do meu país.” Três meses depois veio novo convite para a inclusão de outra música no folhetim de sucesso da Globo: agora era a vez de “All about our love” entrar também para a trilha sonora, só que a internacional. O que já era bom ficou melhor ainda, é quando o impossível acontece e nos surpreende. Aproveito para mandar aquela beijoca joca especial para essa pessoa querida que é o Jorge Fernando, diretor danovela e quem descobriu, numa loja de discos, o “João canta Sade”.

Assim como as novelas “são esticadas” à medida que o público aprova as tramas, o CD – que foi lançado há cerca de dois anos – também ganhou “uma esticada” ou você já prepara um próximo disco?

JOÃO – Ao final de 2008, na volta da turnê pela Europa, eu já estava começando a gravar o próximo álbum, o “Entrenós”, um disco com 13 duetos, produzido por André Agra, o mesmo do Sade, e ainda estou gravando a medida que os artistas envolvidos no projeto têm as suas agendas disponibilizadas. São eles: Edu Krieger, Fred Martins, Fênix, Manu Santos, Rita Ribeiro, Arranco de Varsóvia, Eliana Printes, Patrícia Mellodi, Luanda Cozetti, Ana Costa, Suely Mesquita, Nilze Carvalho, Hermila Guedes e a participação especialíssima de Roberto Menescal. Mas com o Sade, em momento algum, pensei em ter um fim, pelo contrário, ele foi preparado para sempre ser feito, independente de outros projetos. Por exemplo, agora me preparo para fazer, novamente, o espetáculo Chico & Bethânia, só que agora em companhia da cantora Manu Santos. Vamos fazer a Sala Baden Powell, no dia 21 de agosto. Já estava com saudades de voltar a interpretar as músicas desse LP, gravado em 1975 ao vivo no Canecão, em plena ditadura militar.

Seus shows sempre tem umas surpresas bacanérrimas, guardadinhas na manga. Dá pra contar alguma pra gente ou só conferindo quarta-feira no Rival pra saber?

JOÃO – Tem algumas sim! mas posso contar uma: farei uma música inédita minha e de André Agra, “Uma Palavra”, acompanhado apenas de máquina de escrever! acho que vai ser um momento bem bacana e especial do show!

Ser independente é complicado e (quase) todo mundo sabe disso. A Internet se tornou uma ferramenta de divulgação dos artistas, principalmente com as redes sociais. Como é o retorno dessa troca entre você e o público?

JOÃO – O retorno é imediato! domingo ensaiei para o show e, antes, mandei essa informação para o twitter. Na mesma hora muitas mensagens chegaram desejando um ótimo ensaio para mim. O fã fica sabendo o “passo a passo”, o todo processo de preparação de um espetáculo, de um disco, de uma turnê. A relação artista-público é outra. O alcance do trabalho é multiplicado por cem, é repassado, é lido, respondido e comentado. Conversava com amigo sobre isso: antes da internet, ficávamos horas no telefone, a um custo altíssimo, tanto financeiro quanto de paciência, divulgando entre os amigos os nossos shows. Agora não, tudo é mais prático e rápido.

Quer mandar um recadinho?

JOÃO – Quero agradecer a todas pessoas que torceram e que torcem pelo meu trabalho, pela vibração e carinho com que sou tratado. E dizer que o que sempre fiz foi cantar, esse é o princípio, o meio e o fim, me concentrei e faço disso minha rotina feliz de vida, discordando de todos que acham que a vida do cantor é um muro de lamentações. Tudo nesta vida é assim: requer trabalho, foco, concentração, disciplina e amor no que você faz. Porque pensando só em dinheiro e sucesso, é melhor trocar de carreira e procurar outro meio de vida. Penso que primeiro deve vir o prazer e dele fazer valer o dinheiro e o sucesso, que não vêm de graça. Depende também do tamanho do sucesso que você quer: se você for médico e quiser ser ministro da saúde é uma coisa, se for engenheiro e, quem sabe um dia, ter uma ponte com seu nome também é outra coisa. Ou simplesmente você pode ser um médico, um engenheiro e ser feliz dentro desse seu sucesso. Eu sou cantor. E você?

Ping-pong:

Ouvi e gostei: uma prévia que ouvi do primeiro CD de Fernanda Guimarães, cantora de Alagoas, agora morando no Rio de Janeiro.
Li e gostei: a série “Dez Contos” da Editora Mirabolante, tem “Dez contos de Humor”, de Terror, Policial…
Vi e gostei: o filme “Shelter – De repente, Califórnia”, leve e sem os clichês de que todo gay tem que sofrer, ter um passado trágico etc etc etc
Tô adorando: dias de verão no meio do inverno, dou grandes voltas com a minha husky, a Layla!
Tô detestando: a cada ano que passa uma doença nova
Pessoas que admiro e bato palmas: Marisa Monte (cantora), André Agra (produtor) e minha mãe
OPA! eu recomendo: usar e abusar da internet, dos canais de música, do myspace e tanto outros, é um mundo novo
XIII… é cilada, pula fora: ficar reclamando da vida sem mover uma palha para que mudanças aconteçam.
E pra terminar: “Caras”, “Bocas” ou os dois? as bocas das caras… risos!

Entrevista: Zélia Duncan

Zélia Duncan - Foto: Fábio Vizzoni

Depois de quatro anos de intensas viagens experimentais – o CD e DVD “Pré pós tudo bossa band”, a turnê com os Mutantes e o encontro musical com SimoneZélia Duncan está de volta com um novo álbum, chamado “Pelo sabor do gesto”. Produzido pelo Pato Fu John Ulhoa e por Beto Villares, com quem Zélia já havia trabalhado em Sortimento, em 2001 – o 9º disco de Zélia Duncan apresenta 14 músicas, entre novas parcerias, versões e releituras.

No dia do lançamento oficial do álbum, 9 de junho, Zélia Duncan recebeu a imprensa no Parque Lage, Zona Sul do Rio de Janeiro, para falar sobre o CD, que chega ao público pela Universal Music.

Por Fábio Vizzoni

Reflexo dos tempos digitais

Apaixonada pela trilha do filme “Lês Chansons d’Amour”, apresentado a ela pelo DJ Zé Pedro em um CD copiado, classificado como “a pirataria do bem”, Zélia Duncan converteu para o português duas composições do francês Alex Beaupain, que autorizou as versões a partir de um contato feito diretamente por ela através do My Space: “Autorização é um saco, todo mundo me dizia que era melhor não fazer. Eu sei como é chato, mas… fiz. Fiz o contato com a editora, o cara disse “ok”, mas nunca mandava a tal confirmação. Aí eu fui no My Space, procurei o autor, e a coisa passou de artista para artista. Alex, meu nome é Zélia, sou cantora e tal, e a resposta veio automaticamente” – conta.

Na primeira versão, “Boas razões”, Zélia Duncan abre os trabalhos dividindo os vocais com Fernanda Takai, num clima meio “western”, conforme definição da cantora no texto de apresentação distribuído para a imprensa; a segunda é a que dá nome ao álbum. No encarte, em uma das fotos, Zélia aparece deitada na cama com um notebook e o CD da trilha sonora do filme.

Entre as novas parcerias estão a deliciosa balada folk “Tudo sobre você”, de John e Zélia, com uma indagação perturbadora sobre o tempo: “Não sei se eu saberia chegar até o final do dia sem você”. Com Marcelo Jeneci, Zélia Duncan assina “Todos os verbos”, que fala sobre amar combinando uma sequência de conjugação de verbos: Errar, sofrer, chorar, sorrir, ver, trair, olhar, falar, calar, desfazer, esperar, refazer, abraçar, beijar, pensar, fantasiar, nascer, dar, ser, viver e morrer.

Zélia, que em seu álbum anterior dividiu com Moska o sucesso “Carne e osso”, tema da novela “Sete pecados”, repete a dose com “Sinto encanto”. Com Edu Tedeschi, apresenta “Aberto” e “Nem tudo”, e com Dante Ozzetti, “Se eu fosse”. Já com Zeca Baleiro, a combinação música / letra foi invertida em “Se um dia me quiseres”: “Zeca me mandou uma letra tão linda sem saber que eu quase não faço melodias. E eu fiz”.

“Pelo sabor do gesto” traz ainda uma inédita de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, intitulada “Duas namoradas,” e três regravações: “Os dentes brancos do mundo”, da dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle, “Telhados de Paris”, do gaúcho Nei Lisboa, e “Ambição”, de Rita Lee, tema escrito em 1977 para a novela “O Astro”, de Janete Clair. “Eu tenho uma relação afetiva profunda com a obra da Rita, com tudo o que já aconteceu, e Ambição eu não conhecia, e tenho encontrado poucas pessoas que conheciam, o que é mais legal ainda, porque é uma regravação que tem quase uma cara de inédita, por incrível que pareça. E é uma música linda, uma balada incrível”.

Sobre a descoberta, Zélia Duncan conta como aconteceu o encontro com a música: “Um amigo meu (o jornalista Marcus Preto, a quem Zélia agradece na ficha técnica do CD) me disse assim: “esta música está esperando por você”. Eu ouvi e falei: “Cara, onde é que estava isso?!”“.

No disco, Ambição segue acompanhada por Esporte fino confortável, um samba-funk maroto composto com Chico César, que participa dos vocais. A letra, que fala sobre amizade, é dedicada “para Rita e mais alguns”: “Tô na geladeira… pra sempre? / E aí, amizade, a nossa amizade, como é que se sente?”. Um recado singelo que, apesar de Zélia Duncan afirmar que teve o apoio de Rita Lee antes de aceitar o convite dos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, soa como um pedido de desculpas. Durante a entrevista, perguntada sobre o período em que conviveu com os Mutantes, Zélia provoca gargalhadas ao revelar: “saí antes de me aborrecer”.

Solar e delicado, imprimindo um colorido inovador, sereno, “Pelo sabor do gesto” é diferente de tudo o que a cantora e compositora já realizou até aqui, sem abandonar a escola pop que a consagrou, 14 anos atrás, quando estourou nas rádios com “Catedral”. Gestos saborosos para serem ouvidos, apreciados, degustados. Um novo capítulo na trajetória de Zélia Duncan.

Entrevista: Carlos Colla

De Adriana Calcanhotto a Zezé di Camargo, são incontáveis os nomes da música popular brasileira que já gravaram ou cantaram canções escritas por Carlos Colla, o advogado que trocou o direito pela música e que, nas últimas décadas, se tornou um dos autores de maior popularidade da MPB.

Em 2009, Carlos Colla se prepara para lançar seu primeiro DVD, gravado ao vivo no ano passado no Canecão, no Rio de Janeiro, onde comemora 50 anos de carreira, interpretando ele mesmo suas obras primas, com participação especial de Alcione.

Por telefone, Carlos Colla conversou com Música & Letra, e falou sobre momentos de sua carreira, parceiros e intérpretes que, reunidos, somam mais de 2000 canções gravadas.

Por Fábio Vizzoni

Como é que surge inspiração pra compor tanto?
CARLOS COLLA – Acontece o seguinte: eu fiquei durante muito tempo sem ter a possibilidade de compor. Até os trinta e poucos anos, eu exerci uma outra profissão que não me dava chance, eu fazia só uma música por ano, que era pro Roberto (Carlos). Aí, quando eu joguei tudo pro alto e troquei a ganância pela felicidade (risos), comecei a compor sem parar, de forma compulsiva. Compor é uma delícia: só tem duas coisas que se comparam a compor: comer e trepar!

E você tem uma estimativa de quantas músicas você já escreveu?
CARLOS COLLA – Não, mas é muita coisa, muita coisa. Eu tenho um parceiro, o Michael Sullivan, o Sullivan vem cá pra casa com doze, quinze ideias preparadas. Aí, a gente pega um dia inteiro e faz dez, doze músicas. Fora isso, eu faço um exercício de composição todos os dias. Mesmo que saia uma porcaria, uma droga, eu tento fazer uma coisa que saia diferente do que o que eu já fiz ou que outros já fizeram. É uma tentativa meio inútil, porque, por mais que você faça música, já existiram Beethoven, Mozart, Chopin, essa turma toda que chegou na frente. Eles criaram tantas coisas maravilhosas, e pouco sobrou pra gente criar. Mas a tentativa vale, e dessas tentativas as vezes saem coisas boas.

Nessa relação com parceiros, você normalmente faz a letra, faz a música ou isso independe?
CARLOS COLLA – Independe. Na verdade, às vezes eu faço só a letra, as vezes eu faço só a música mas, na maioria das vezes, é tudo junto, tudo misturado.

É difícil pra você, como compositor, interpretar suas próprias canções depois que elas já fizeram sucesso com outras vozes, deram outras versões para aquilo que você escreveu?
CARLOS COLLA – Ah, bom… claro que é, primeiro que eles são cantores, e eu sou compositor. Você pega um Roberto Carlos, por exemplo. Depois que ele canta, fica difícil pra qualquer outra pessoa cantar. Ele faz a coisa tão bem feita, tão perfeita, tão correta, não é?! E outros mais que, as vezes, a música nem é lá essas coisas, mas o cantor transforma, faz ela ser uma interpretação única.

Então esse seria o motivo para que você, até hoje, só tenha gravado dois discos e, agora, preparando o DVD e o CD?
CARLOS COLLA – Não, não, o motivo não é esse não. O motivo é que eu adoro compor, e se eu começar a me meter a cantor, eu vou perder tempo pra compor, eu não vou ter tempo pra fazer a coisa que eu mais amo fazer na minha vida. Pegar o violão, sonhar… quando eu boto o violão na mão, eu sou qualquer coisa, cara! Eu consigo me transformar em qualquer coisa, sou velho, sou criança, sou valente, sou fraco, sou covarde, sou inteligente pra caramba, burro à beça (risos)… eu posso me dar o prazer de ser o que eu quiser, porque é outra pessoa que vai cantar aquilo, não sou eu.

Voltando um pouco na sua carreira: Conte para nós como foi sua estreia como compositor profissional quando, no início dos anos 1970, ainda integrante do O Grupo, você pediu ao Roberto Carlos uma música para o LP da banda e ele inverteu o pedido:
CARLOS COLLA – Bom, naquela banda eu era o último a falar o primeiro a entrar na porrada, porque eu vinha da roça – Teresópolis naquele tempo era roça – e o pessoal era todo daqui, Zona Sul, filhinho de papai, todo mundo bem na fita, e me discriminavam, porque eu não me vestia como um garoto da Zona Sul, não falava como um garoto da Zona Sul, então ficava lá, recolhido no meu cantinho mesmo e tudo bem. Toda ideia que eu dava, não prestava. O Maurício (Duboc, um de seus parceiros musicais mais freqüentes, e que também era da banda) era amigo do Roberto, e sabia dos meus poemas, das minhas músicas e tal, e a gente se dava muito bem porque nós éramos os últimos a falar, ele era o mais novo, então a gente se unia mais por rejeição dos outros. Os caras da banda eram fantásticos, tinha gente que estudou harmonia com Eumir Deodato… os caras eram fodões mesmo, e a gente ia gravar um disco. Aí o Maurício disse: “ – vamos lá, Carlinhos, vamos falar com o Roberto”, e eu disse: “ – vambora!”. O Roberto estava no camarim e nós, no palco. Fomos lá, falamos com ele que íamos gravar um disco, e precisávamos de uma música pra botar numa novela. Ele fez a música pra gente, e falou: ” – tá, tudo bem, mas porque vocês não fazem uma pra mim também?”. Eu e Maurício saímos e fomos pra casa do Roberto Quartin, em Ipanema, que tinha um piano maravilhoso e tal, e fizemos as duas músicas (A Namorada e Negra), em menos de duas horas. Foi uma coisa muito rápida.

Aí, o Maurício foi a São Paulo e levou a fita pro Roberto. Ele chegou lá e ficou aguardando, enquanto o Roberto estava ensaiando. Ele entregou a fita ao Roberto, mas sentou ao piano e começou a cantar e tocar, ao vivo. E o Maurício é fodão, né, toca pra caramba… (risos), canta pra caramba, harmoniza pra caramba, uma voz lindona. Impressionou, né?! Aí o Roberto adorou. Eu nem fiquei sabendo disso, ele só me contou depois. Eu fiquei sabendo mesmo quando eu recebi na minha casa um telegrama da antiga CBS (hoje Sony Music), me convocando pra assinar um contrato.

E, a partir daí, foram surgindo uma série de músicas, que o Roberto foi gravando ano após ano, uma em cada disco…
CARLOS COLLA – É, naquele ano – 1971 – ele gravou A Namorada, no ano seguinte ele gravou Negra, e no terceiro ele ligou pedindo: ” – Quero mais uma!”. E foi daí que ele começou a ligar pra pedir. NOTA: a partir daí, Roberto Carlos gravou: Sonho lindo (1973); Existe algo errado (1975); Comentários (1976); Falando sério (1977); Mais uma vez (1978); Me conte a sua história (1979); Passatempo (1980); Doce loucura (1981); Quantos momentos bonitos (1982); A partir desse instante (1983); As mesmas coisas (1984); Você na minha mente e Da boca pra fora (1985); Eu sem você (1986); Ingênuo e sonhador (1987); Se o amor se vai e Eu sem você (1988); Se você me esqueceu e Se você pretende (1989); Um mais um (1990); Se você quer e Não me deixes (1991); Prá ficar com você (1995) e Como eu te amo (2003).

Entre as suas composições, nessas que foram sucessos com Alcione, com Emilio Santiago, Tim Maia, Jerry Adriani, Wando etc, quais são as suas prediletas?
CARLOS COLLA – Com o Wando, Amor vira lata, que nem fez tanto sucesso assim, mas eu acho que ele arrebentou ali, cantando; Bye Bye tristeza, com a Sandra de Sá. E aquelas interpretações que são tão únicas, tão maravilhosas, tão perfeitas, que ninguém mais consegue gravar a música. Por exemplo o (Agnaldo) Timóteo, que gravou uma que eu fiz com o Eduardo Lages, no tempo que eu era advogado ainda, chamada Etiquetas. Depois, na febre dos sertanejos, algumas duplas tentaram cantar, mas quando escutava a dele, não dava pra ficar igual. Outros solistas também, mas não dava pra ficar igual. Falando sério também, a interpretação do Roberto é imbatível, embora a Simone tenha gravado lindo, a Bethânia tenha gravado lindo, Fábio Jr., Paulo Ricardo… o Brasil ta muito bem servido de cantores, né?!

Pra terminar, qual o recado que você mandaria para as pessoas que acompanham o seu trabalho, através dessas músicas maravilhosas?
CARLOS COLLA – As grandes fortunas são feitas na crise. Nós estamos vivendo um momento de crise no mundo, momento de muito medo, de muita insegurança. Então, gente, nesse momento, é a hora de andar pra frente, de pegar pesado, de arregaçar as mangas e ir fundo, vamos fazer música, vamos pintar, vamos escrever, vamos fazer as coisas que nós sabemos fazer, porque a crise a gente vence é com isso: é com trabalho.

Entrevista: Fernanda Takai

A voz suave, o jeito meigo e um talento único de interpretar canções simples e sutis são três das muitas coisas que Nara Leão e Fernanda Takai têm em comum. A geração que as separa mostra que, com o passar do tempo, as coisas podem mudar, mas a essência continua a mesma.

Fernanda Takai, 36 anos e vocalista da banda mineira Pato Fu, lançou há poucas semanas o seu primeiro disco solo, intitulado “Onde brilhem os olhos seus”, em homenagem à Nara Leão (1942-1989). Segundo Fernanda, a palavra tributo é muito forte para identificar o disco: “é um disco dedicado à ela”, conta. Nele Fernanda canta as músicas que fizeram sucesso na voz de Nara. “Lindonéia”, de Caetano Veloso, é delicada e relembra as marchinhas de carnaval da época, “Debaixo dos Caracóis dos seus cabelos”, de Roberto & Erasmo Carlos, ganhou um novo ritmo, e outras interpretações como “Estrada de Sol” e “Taí”, conseguiram alcançar uma boa representação do passado da nossa MPB.

Em entrevista ao Música & Letra, Fernanda Takai conta os detalhes do primeiro trabalho solo.

Por Rubinho Vitti

“Onde brilhem os olhos seus” é o seu primeiro disco solo. Demorou para gravar um disco com o nome Fernanda Takai “desvinculado” da banda?

FERNANDA TAKAI – Não está desvinculado porque conto com a ajuda de meus amigos de banda. E fiz isso justamente porque estou muito feliz com a atual fase do Pato Fu, com o tipo de produção que conseguimos fazer em nosso estúdio, com os arranjos que Lulu (Camargo, tecladista da banda) e John (Ulhôa, guitarrista e marido de Fernanda) criam. Eu não sentia necessidade de gravar um disco solo autoral, este é um projeto solo especial.

O convite inicial para gravar este disco partiu de Nelson Motta, mas existia a vontade de gravar um disco “só seu” há algum tempo ou havia mais pressão da mídia, gravadora e público?

FERNANDA – As pessoas me perguntavam sobre disco solo, mas não era nada sob pressão. Acho que acabei fazendo o álbum impulsionada pela idéia do Nelson, porque seria totalmente sem nenhuma outra força nos movendo a não ser a vontade artística mesmo. O orçamento era nosso, o cronograma não havia. Pensei ser um projeto muito simpático com o qual eu tinha uma memória musical afetiva forte.

A criação dos arranjos das músicas deste disco tentaram fugir um pouco do trabalho feito dentro do Pato Fu?

FERNANDA – No Pato Fu mesmo, temos a tradição de desconstruir bastante as versões que fazemos de outros artistas. Nesse sentido, usamos a nossa própria escola. Queríamos fazer um disco ainda mais delicado que o disco mais recente da banda. Mas não fugimos do que sabemos fazer melhor que é criar estéticas sonoras interessantes pra cada canção.

Como foi a escolha do repertório? A intenção do disco é realmente um tributo?

FERNANDA – Essa palavra tributo é meio pesadona. Digo que é um disco dedicado à Nara, uma forma da gente se lembrar do bom gosto dela, da importância que ela teve como artista em épocas diferentes de nossa música. Apesar de ter o nome dela sempre por perto, é um disco muito pessoal. Afinal, na escolha das músicas, a palavra decisiva era minha. Quando eu e Nelson tínhamos alguma dúvida entre que música gravar, ele sempre me dizia pra escolher simplesmente qual eu tinha mais identificação. Claro que busquei momentos significativos da carreira da Nara, mas todos eles também me são muito confortáveis como intérprete.

Após o lançamento você pretende realizar shows deste disco solo ou continua apenas com a turnê de “Daqui pro Futuro”?

FERNANDA – Vou fazer shows sim, mas não marquei datas. Teremos duas turnês simultâneas. Terei uma banda diferente me acompanhando (mas John e Lulu fazem parte dela) e o Pato Fu não vai tocar as músicas de meu disco solo nos shows. São coisas separadas nesse ponto.

Existe um incômodo quando as pessoas te comparam a outras personalidades da música como Rita Lee (na época dos Mutantes) ou até mesmo Nara Leão? Ser a “Nara Leão do pop-rock” (apelido dado por Nelson Motta) é um elogio que pesa?

FERNANDA – Quando eu era mais nova pesava mais. Hoje com uma carreira de 15 anos acho que tenho segurança em mim mesma. Sei que a maioria das comparações é mais do que elogiosa. Eu tenho o meu timbre de voz, descobri meu jeito de cantar. Então é um peso-leve, digamos.

Você disse em uma entrevista que ouvia Nara Leão desde criança. Sua filha Nina terá o mesmo privilégio?

FERNANDA – Ela já reconhece a voz da Nara sim. Nina gosta muito de música e sempre que estamos ouvindo algo juntas ela me pergunta quem está cantando, pede pra ver a foto do disco. Espero que ela tenha a sorte de ouvir coisas boas, como eu ouvi ao longo da vida.

As dez mais de Rodrigo Santos

Enquanto o Barão Vermelho segue em férias, o baixista Rodrigo Santos cai na estrada, seja com o seu show solo, com repertório baseado em seu primeiro CD, “Um pouco mais de calma” (Som Livre), seja com Os Britos, banda formada com os amigos George Israel (Kid Abelha), Guto Goffi (Barão Vermelho) e Nani Dias.

Rodrigo, que esta semana se apresenta no Centro do Rio, no Estrela da Lapa (quinta-feira, dia 18, às 22 horas) separou um tempinho na corrida agenda de shows e ensaios para contar, com exclusividade, quais são as dez músicas inesquecíveis de sua vida.

Toca aí, Rod!

“A banda”, com Chico Buarque
“Foi das primeiras músicas que me lembro de repetir na vitrola (!) por várias e várias vezes. Essa música me lembra muito meu pai, meus tios e minha casa em Petrópolis na infância”.

“O calhambeque”, com Roberto Carlos
“Quando eu tinha uns 6 anos, meus irmãos mais velhos deram uma festa na nossa casa em Petrópolis e essa música me faz recordar muito esse glamour do rock ingênuo e despretensioso.É muito bacana como Roberto e Erasmo conseguiam nos mostrar aqui no Brasil, uma parceria com tanta força nas canções. Antes só conheciamos com Lennon-McCartney e Jagger-Richards na Inglaterra dos Beatles e Stones. Foi a primeira grande parceria nacional”.

“Preta Pretinha”, com Novos Baianos
“Os Novos Baianos eram amigos da minha tia e me lembro muito bem deles lá na nossa casa em Samambaia (RJ). Me lembro de estar quase dormindo no quarto e eles na maior festa na sala, tocando e cantando a valer. Aquela festa e celebração marca muito a minha vontade de ser músico, e “Preta Pretinha” era a trilha sonora de quando íamos acampar em Porto Seguro… eu tinha uns 9 anos”.

“O vira”, com Secos & Molhados
“Aí eu já estava começando a tocar baixo e lembro que essa música tinha uma levada de walking-bass muito parecida com Paul McCartney nos primeiros discos dos Beatles, mais precisamente em “All My Loving”. Tocava todo santo dia com o famoso disco dos Secos e Molhados… até hoje um dos maiores discos da história da música brasileira, sem dúvidas. Dancei muito essa música em festinhas também”.

“Domingo no Parque”, com Gilberto Gil
“Acho que essa é a canção que mais me lembra o disco “Sargeant Peppers” dos Beatles. Gil conseguiu juntar todo o universo de um dia infantil no parque de diversões, com a tensão de um crime passional que estava pra acontecer junto aquele universo tão angelical do parque… uma obra prima! conseguimos ver e sentir exatamente o que está acontecendo. Grande música!!! escutei muito e criei no meu CD solo um clima parecido na música “Cidade Partida”, onde fui em algumas escolas e captei com meu gravador o barulho das crianças brincando no recreio…juntei a um realejo pra dar um clima de suspense também. Foi influência dessa música e um pouco de Pink Floyd!”.

“Faroeste caboclo”, com Legião Urbana
“Acho que foi inspirada em “Domingo no Parque” e em “Hurricane” do Bob Dylan. Essa, quando ouvi a primeira vez, na casa do Nani Dias (meu parceiro de Front e Britos)… chorei! Foi tão bela a história e tão precisa a execução harmônica-ritmica-melódica da canção, que eu me envolvi de prima e me emocionei assim que começou a tocar. Fantástica e épica-westerniana, só que genuinamente brasileira… de Brasília! adoro essa coisa de trovador que conta uma saga… música que inspira um filme, cinematográfica”.

“Codinome Beija-Flor”, com Cazuza
“Só o Cazuza conseguia falar de amor daquela maneira, tão direta e poética ao mesmo tempo, sem ser piegas. A música é de uma beleza sussurrada enorme. Um grande poeta, dos maiores do planeta!”.

“Me chama”, com Lobão
“Toquei com o Lobão durante 5 anos, e é uma das pessoas mais talentosas que eu conheço. Gosto de todas as músicas dele, sem exceção, mas “Me Chama” também faz parte da minha história e sempre gostei da versão dele (a que esqueceram de colocar os pratos) mais do que das milhares que vieram depois. Gosto de gente que interpreta mais do que canta! toquei mais de 300 vezes essa música ao vivo e sempre me marcou muito. Lobão estava inspiradissimo ali… como nunca deixou de ser. Tem também um dos maiores solos de rock do Brasil. Guto Barros fez um solo melódico marcante a la Men At Work”.

“O Sono Vem”, com Rodrigo Santos
“Coloco essa música porque acho que me descubro como escritor-poeta ali, na maior das minhas essências, romântico e maldito ao mesmo tempo. É uma música que fiz pra minha mulher no meio de uma paixão que estava quase impossível de se concretizar, tantos eram os impecilhos no começo do namoro. Além disso, é só minha e concorreu com várias outras músicas pro disco do Barão (“Puro êxtase”, de 1998). Como todas tinham mais de um compositor, por votação, ela poderia ficar de fora, já que era de um compositor único. Mas a força dela rendeu a todos e ela entrou, entrando também no meu CD solo em 2007 numa versão mais Neil Young. A música também fala de drogas, e acho muito precisa nos arranjos de ambos os discos. Nela me descobriram compositor e me abriram as portas para outras em seguida”.

Ainda faltariam “Polícia” (do Titãs, pelo lado Punk-Rock que me identifico), “Arpoador” (A Cor do Som, pelo solo de baixo do Dadi), “Caçador de Mim” (com 14 Bis, pelos vocais) e “Rapte-me Camaleoa” (do Caetano, a que me fez voltar a tocar baixo), entre outras.

Entrevista: Beto Lee

Nesta quinta-feira – e durante as próximas doze semanas – o músico Beto Lee embarca em uma nova aventura: troca as guitarras e os palcos pelas câmeras, para contar um pouco do que aconteceu no cenário pop rock brasileiro das últimas décadas em Que rock é esse?, nova série do canal de TV por assinatura Multishow.

Tendo como ponto de partida os anos 60 e 70, Beto vai mostrar, entre imagens de arquivo e depoimentos inéditos de nomes como Nelson Motta e Lobão, uma retrospectiva de parte da música brasileira (e também de sua vida, afinal, ele é filho de Rita Lee e Roberto de Carvalho).

Em entrevista ao Música & Letra, Beto contou um pouco do que virá por aí neste novo programa, que estreia no dia 4, às 21h45.

Por Fábio Vizzoni

Como surgiu a idéia de contar, em episódios, a história do rock brasileiro?

BETO LEE – A idéia não foi minha. Eu apenas segui o roteiro, bicho. Mas senti que os anos 60 e 70 ficaram espremidos num episódio, e a prioridade foi os anos 80. Gostei muito de ter entrado um pouco mais na história e até fiz umas pesquisas por minha conta. Eu acho que a história da música brasileira renderia pelo menos uns 50 episódios!

E como pintou o convite para ingressar nessa viagem como apresentador?

BETO – Putz, eu mandei um piloto de um programa que fiz junto com um amigo meu para o Multishow e eles gostaram. Até que eu enganei direitinho! Foi doido porque eu não tive ajuda de teleprompter ou cartolina gigante pra ajudar com os textos. Tive que decorar tudo, bro! Foi foda.

Você já passou pela experiência de apresentar um programa, ao vivo, na Internet (na AllTV). Pra você, o que muda entre um formato e outro?

BETO – Cara, o programa na internet que fiz foi uma zona total, mas foi divertido pra caramba porque a gente tocava o puteiro ali dentro. Com a série, tive o Rodrigo (Carelli) me dirigindo o tempo todo, corrigindo textos comigo. Outro mundo.

Nestes 13 episódios, qual foi o critério de escolha dos personagens?

BETO – Eu não meti o bico nisso. Ficou por conta deles escolherem os personagens.

Além dos já anunciados Mutantes, quem mais passará pelo programa? Você opinou na seleção das histórias?

BETO – Espere e verá! Não opinei em nada.

Em entrevista recente, você declarou que, entre a esquizofrenia e a hiperatividade, surgiu a vontade de lançar três discos, simultaneamente. Em meio à crise que empurra o mercado fonográfico ladeira abaixo, você acha que seria viável? a Internet seria uma alternativa para mostrar essa nova safra de composições?

BETO – Cara, eu não faço parte da turma mainstream. Pretendo sim lançar umas coisas pela internet, porque é uma aliada que todo músico ganhou, independente ou não.

Além do My Space, você está preparando um site novo. O que deve pintar por lá? e quando?

BETO – Meu site novo fica pronto em breve. Tô preparando coisa nova. Tive filho e dei um tempo, fiquei sussa, mas quero gravar e tocar!

Pra terminar: se você tivesse que escolher os personagens para contar a história do rock (não só o brasileiro) quais seriam, segundo sua ótica?

BETO – Putz, a lista seria grande!

As dez mais de Cynara Faria

Cantora do Quarteto em Cy elege as dez canções que fazem parte de sua vida

Cynara Faria e Chico Buarque

Cynara Faria e Chico Buarque

Por Fábio Vizzoni

Qualquer pessoa é capaz de gostar de dezenas, centenas de músicas. Mas, entre todas elas, existem aquelas que são especiais, que tocam o coração e a alma, nos fazem lembrar de momentos felizes, pessoas que passaram por nossas vidas e tantos outras boas recordações. Ou, simplesmente, marcaram uma época.

Enfim, são as nossas preferidas, que nunca saem das nossas paradas de sucesso, da nossa playlist.

Para inaugurar este novo espaço aqui no Música & Letra, convidamos a talentosíssima Cynara Faria, uma das vozes do grupo Quarteto em Cy há mais de 40 anos. Cantora e instrumentista de mão cheia, Cynara escolheu dez canções que fazem parte de sua história de vida, seja como artista, seja como ouvinte.

Com vocês, “As dez mais de…” Cynara Faria:

HORAS, de Dorival Caymmi
“Uma canção diferente das composições do Caymmi e que me levam para um momento bonito da carreira do Quarteto em Cy, quando Oscar Castro Neves era nosso arranjador e diretor musical. Linda música.”

JOÃO NINGUÉM, de Noel Rosa
“Esta música foi-nos dada (a mim e a Cybele) pelo Chico Buarque, na época em que fizemos o nosso primeiro LP, em 1967, e o Chico nos ajudou a armar o repertório do disco. Ele escreveu a contracapa.”

SABIÁ, de Tom Jobim e Chico Buarque
“O motivo é óbvio. Ganhamos o Festival Internacional da Canção em 1968 e também ganhamos uma das maiores vaias da história. Mas valeu. A Sabiá faz parte da minha vida.”

DOCE VENENO, de Valzinho
“Este choro foi me dado pelo Paulinho da Viola, em 1969, quando gravei meu LP solo e fiz um show com o Paulinho no Teatro Casa Grande, dirigidos por Sidney Miller. Lindo choro que gravei no meu LP solo. “

FOGO SOBRE TERRA, de Toquinho e Vinicius
“Gravamos com o MPB-4, e é uma música que me lembra a nossa fase de trabalho com os dois queridos compositores. Passamos os anos de 1974 e 75 fazendo shows pelo Brasil com Toquinho e Vinicius, e era uma fase em que ouvia muito esta música. “

BACHIANA Nº. 4, de Villa-Lobos
“Qualquer música do Villa é maravilhosa e esta me lembra uma fase de grandes acontecimentos na minha vida e no País. Era o ano de 1968. “

ESTRADA BRANCA, de Tom e Vinicius
“Cantei muito esta modinha em shows e especialmente adoro a gravação da Elizeth Cardoso no LP Canção do amor demais, de 1958.”

ORIENTE, de Gilberto Gil
“Adoro a nossa gravação para esta música, do LP Cobra de vidro, com o MPB-4. Para mim é a gravação definitiva, arranjo maravilhoso de Luis Claudio Ramos.”

PARA VER AS MENINAS, de Paulinho da Viola
“Sem comentários. Música e letra lindíssimas. Não sei explicar o porquê de amar uma música. É um sentimento incondicional.”

O CIRCO MÍSTICO, de Edu Lobo e Chico Buarque
“Tudo do Edu e tudo do Chico é do que mais gosto em termos de música. Chico é imbatível e Edu como parceiro é perfeito. Esta música faz parte da trilha do “O Grande Circo Místico”, e é uma trilha que me inspira os melhores sentimentos.”

Entrevista: Aspásia Camargo

Na próxima sexta-feira, dia 25, a cantora e compositora Rita Lee receberá, na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, o título de Cidadã Honorária do município do Rio de Janeiro. E quem nos conta sobre esta premiação é a vereadora Aspásia Camargo (PV-RJ), autora do projeto, que gentilmente recebeu o Música & Letra em seu gabinete para falar sobre a homenagem e a influência da cantora e compositora paulistana em sua vida.

Por Fábio Vizzoni

Vereadora, como surgiu o projeto de homenagear Rita Lee?

ASPÁSIA CAMARGO – Surgiu porque a Rita Lee esteve nos brindando, aqui no Rio de Janeiro, com seu show no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, que é o padroeiro da cidade. Foi um show magnífico, muito lindo, e ela, nas suas declarações, dizia que amava o Rio de Janeiro, mesmo com a água suja de cocô (risos), dizia que amava Copacabana, que queria morar em Copacabana. Então, quando eu vi aquela declaração de amor tão linda, num momento em que o Rio está numa situação tão difícil, penosa e tudo, eu realmente fiquei apaixonada (e eu já era apaixonada por ela mesmo), e aí eu falei: ” – Então eu vou convidá-la. Eu vou dar esse título de cidadã carioca que ela quer, que ela almeja”.
Nós entramos em contato com a assessoria dela, e a resposta custou a vir. Eu achei que ela estava meio reticente, mas é porque ela estava descansando, fora de São Paulo. Eu enviei uma mensagem pessoal a ela – e não foi uma coisa de gabinete, foi uma coisa minha, do meu coração mesmo – dizendo que ela já era carioca, pelo seu temperamento crítico, ferino, gaiato… ela já nasceu carioca! Rita Lee é carioca! O que eu queria fazer era apenas dar a ela este título, que ela já possuía, na verdade. E dizendo também que eu a amava profundamente, que ela é uma mulher extraordinária, que realmente fez uma revolução no século XX que muitos ainda estão esperando aí para o século XXI, que ela se antecipou à sua época, e que ela era única, como compositora e como intérprete, e que nunca haveria nada igual.
Rita escreveu uma carta muito carinhosa, e nós ficando trocando e-mails… ela se chamou de “Ritz”, e eu me chamei de “Aspz” (risos), e disse que gostava muito de mim, que tinha o maior prazer e o orgulho em receber um título meu, e eu também disse que queria muito valorizar também o lado militante dela, em defesa da mata atlântica, dos animais, e que era muito bonito esse lado ambientalista dela, e que pra mim também era importante, pelo Partido Verde, em todos os sentidos, não apenas em defesa do ambientalismo que ela faz muito bem, mas também na maneira inovadora que ela vê o futuro através das letras de suas músicas, pela sua audácia feminina. Enfim: pelo que ela representa. São pouquíssimas as mulheres que são, ao mesmo tempo, grandes intérpretes e grandes compositoras, e nós temos que valorizá-las. E ela é uma show-woman extraordinária. Sempre, sempre Rita Lee!

Além da atitude, também.

ASPÁSIA – Além da atitude, claro, e ela acha que a parceria com Roberto de Carvalho foi muito importante pra ela, porque ele é carioca e tem essa leveza que ela admira nos cariocas, e que ele abrandou a sua música e o seu modo de ser, na convivência com esse carioca que ela tanto ama. E portanto nós estamos estendendo essa homenagem a ele, ao Roberto, que é carioca da gema e que, segundo ela, trouxe todas as alegrias da Bossa Nova, do Beco das Garrafas… a “Bossa ‘n’ roll” é o casamento com Roberto, que mais uma vez demonstra como ela é pioneira, que ela é uma líder natural. Como neste trabalho dela, o “Balacobaco” (álbum lançado em 2003), que eu gosto muito, que é uma delícia… e é inovadora também, do “Amor e sexo”, que é uma coisa muito inspirada no (Arnaldo) Jabor, mas tem uma marca muito forte dela também.

E como foi o encontro de vocês duas, aqui no Rio de Janeiro?

ASPÁSIA – Depois da nossa troca de e-mails, em que ela foi muito carinhosa comigo, e eu disse a ela tudo o que eu achava dela (e eu acho que ela gostou). Então nós marcamos um encontro no (Hotel) Sofitel. Aí eu vejo aquela mulher extraordinária, aquele cabelo vermelho que todo mundo conhece, aquele despojamento, ela estava linda, com uma roupa muito bonita, uma calça comprida, uma blusa muito bonita… e conversamos sobre a vida dela, e eu perguntei sobre coisas que eu queria saber, e ela disse coisas deliciosas, como por exemplo que “ela é uma ex-hippie comunista” (risos). Coisas de Rita.
E ela relembrou outras experiências, e foi tudo muito prazeroso. Nós tiramos lindas fotos com Copacabana ao fundo – e ela tem uma fixação por Copacabana que é muito justificável. Então ela disse que é insaciável, e que, além da cidadania, quer também sair em uma escola de samba, e que quer aprender a sambar. E aí eu sugeri o Carlinhos de Jesus, que é muito bom.

E ela topou?

ASPÁSIA – Ela topou. Agora, ela tem que vir pro Rio um pouquinho, né?!, ficar aqui um pouquinho. Ela gosta muito do mato, e tem uma casa no mato, segundo ela.

Em 2004, na época da turnê do CD “Balacobaco”, Rita Lee deu uma declaração aqui no Canecão, dizendo, entre outras coisas, que estava cansada de São Paulo e procurava apartamento em Copacabana, e os paulistas se ofenderam a ponto dela colocar, em seu site oficial, uma carta explicando que era tudo uma brincadeira e que, sempre que ela vai a outro estado, diz a mesma coisa. A senhora não tem medo que esta homenagem provoque novamente a mesma reação?

ASPÁSIA – Não, porque nós já combinamos o que a gente quer: nós queremos a aliança Rio – São Paulo. Essa história de briguinha entre Rio e São Paulo é coisa do século XX, do século XIX, quando houve problemas com a proclamação da República, há mais de cem anos atrás. Eu, por exemplo, adoro São Paulo. Nunca passei nenhum momento da minha vida que não fosse prazeroso em São Paulo. Adoro os paulistas, acho o povo gentilíssimo, inteligente, interessante. Ela é a mensageira dessas duas raças, de pólos diferentes. Acho que essa generosidade que ela tem com o Rio, eu gostaria de ter também com São Paulo. Então a gente tem essa ponte de aproximação. Ela gosta de ser vanguarda, e eu também. Então eu estou muito feliz que o Rio possa ter esta “madrinha”, esta “fada-bruxinha”.

A Senhora e Rita Lee têm trajetórias diferentes, e elas se cruzam quando o assunto é a militância, seja na política ou na cultura. Sendo de uma mesma geração, como a senhora vê esse perfil da mulher que, desde os anos 60, segue brigando pelos seus direitos?

ASPÁSIA – Eu tive muita afinidade com o que ela disse, engraçado… muita, muita mesmo. A família que ela teve foi muito parecida com a que eu tive. A mãe, tradicional, exigindo que a filha cumprisse as tradições, os códigos, costumes etc, e também um ambiente de liberdade que eu senti que ela teve, de irreverência que ela teve, e que no fundo tornou, digamos assim, para pessoas como ela e como eu, dessa faixa etária, o feminismo um pouco inútil, um pouco frio, sem sentido.
Nós não tínhamos um clima de ruptura dentro de casa: nós tínhamos um clima de familiaridade, de família bem resolvida, simpática. Então a revolução foi cultural mesmo. E eu acho que essa revolução cultural passou também por uma capacidade de realização pessoal – cada um no seu campo – mas que teve também um toque de ousadia. Porque ela sempre foi a primeira a fazer uma série de coisas, eu também. Eu fui a primeira mulher a ser presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e pesquisas em Ciências Sociais, eu fui a primeira da minha geração a ter doutorado, e ela também esteve sempre na vanguarda. Nós não precisamos do feminismo pra fazer isso, mas nós fizemos sim uma revolução feminina.
Também vejo outras aproximações com ela, por exemplo: ela é muito ligada à família, cultiva muito a família, filhos, netos, o casamento, e isso também é atípico: nossa geração foi muito atormentada, com muitos conflitos de gênero. E nós não vivemos esse conflito de gênero: nós vivemos uma coisa de desacato. E ela, cantora, uma liderança da música, a música tem uma capacidade de se espalhar que é uma coisa impressionante. Os músicos tem um papel na sociedade contemporânea que é único, porque eles lideram processos, derrubam tabus, inovam comportamentos. E ela fez tudo isso.

E o que está programado para a cerimônia, que acontecerá no próximo dia 25 de maio na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro?

ASPÁSIA – Para esta cerimônia está programada, como em todas as cerimônias, uma mesa em que algumas pessoas comparecem, logicamente o Roberto e alguns convidados especiais, além de outras personalidades que estamos convidando.

Eu gostaria que a senhora falasse sobre a influência das músicas de Rita Lee em sua vida, ou contasse uma história onde ela esteja presente como fundo musical:

ASPÁSIA – Caramba… (risos). Não sei se eu tenho, assim, uma história. Acho que toda a minha geração viveu os dois grandes lançamentos dela, que foi o “Mania de você” (1979) e o “Lança perfume” (1980) como uma coisa inesquecível. Porque era romântico e, ao mesmo tempo, abusado. Todo mundo que estava apaixonado, se apaixonando ou querendo se apaixonar, via essas músicas como um convite, um estímulo. Os amores aconteciam sob o som de Rita Lee, e eu vivi os meus! Havia muito ritmo e muita poesia também.
O “Rock pauleira” é conflituoso, irritado, raivoso, mas essa mistura que ela fez de música romântica e desabusada, com toques de samba, o que ela bem entendia e bem queria, aquilo era realmente um convite à sensualidade, ao erotismo. Coisa também muito rara, porque o erotismo é uma coisa muito delicada, porque as pessoas podem ser muito grosseiras quando elas tentam trabalhar com isso, e a gente vê, toda hora, coisas que desagradam, coisas que ferem, e ela, ao contrário: ela soube fazer do erotismo uma coisa muito leve e muito séria, e um convite mesmo. Era irresistível! Era isso que acontecia com a gente. Olha, é perigoso ouvir a Rita Lee em um certo clima, porque vai acontecer!

Pra terminar, qual a lembrança mais antiga que vêm a sua mente sobre Rita Lee?

ASPÁSIA – Ah, Mutantes. Aqueles festivais… foi lá. Ela apareceu ali, assanhada, loirinha, espevitada, louquinha… ela disse que “ela era a louca do grupo”, ela que fazia as loucuras todas, a programar a loucura. Eu acho que ela tirou os Mutantes daquele compasso natural, ela desconstruiu um pouco os Mutantes. Eles gostaram, mas depois não agüentaram. E ela foi mais forte que eles.

Entrevista: Rita Lee

Rita Lee - Foto: Fábio Vizzoni

Maio é, tradicionalmente, o mês das noivas e das mães. Momento de transformação e realização para boa parte das mulheres do Brasil e do mundo, seja com os casamentos que se iniciam, seja com seus filhos, netos e bisnetos. Certamente o período perfeito para o novo lançamento de Rita Lee: prestes a completar 60 anos de vida e 40 de carreira, a cantora e compositora – símbolo da inteligência e irreverência feminina, casada, mãe de três filhos e avó da pequena Izabella – reuniu histórias de vida e momentos de sua carreira em “Biograffiti”, box com três DVDs que marca a sua estreia na Biscoito Fino.

Por e-mail, Rita Lee conversou com exclusividade para o Música & Letra, e falou sobre este momento especial de sua vida, marcado com homenagens e novas histórias a serem contadas.

“Biograffiti” faz um apanhado de seus grandes sucessos, traz momentos raros (como o encontro com João Gilberto em “Joujoux et Balagandans”, de 1980) e apresenta três canções inéditas – “Tão”, “Dinheiro” e “Eu sou do tempo”. Como foi reunir quatro décadas em três discos?
RITA LEE – Realmente as 4 décadas da minha vida musical não couberam em apenas 3 dvds e nem esta era a intenção inicial, portanto a novela continua, inclusive os próximos capítulos já estão sendo gravados.

Chico Buarque narrou sua própria história em 12 DVD’s, dirigidos pelo mesmo Roberto de Oliveira. Você em três. Ficou muita coisa de fora ou mais histórias virão por aí no futuro?
RITA LEE – Putz, acho que já respondi acima…

Com o lançamento do box você estreia na Biscoito Fino, uma gravadora que, gradativamente, vem se assemelhando à Philips dos anos 70, por abrigar os grandes nomes da música brasileira (e você também estava lá!). Como está sendo a acolhida nesta nova casa?
RITA LEE – Meu, os biscoitenses são gente fina e respeitosa, tem um “quê” de gravadora independente bastante bem vindo no meio de tantas majors viciadas na falta de visão do mercado musical e hábitos um tanto ultrapassados. Estou adorando trabalhar com eles, é um casamento que promete muitos filhos.

Seus “compadres” Caetano e Gil estão, aos poucos, diminuindo a quantidade de apresentações ao vivo, pisando no freio… Rita, o povo quer saber: você realmente vai parar de fazer shows?
RITA LEE – Pois é, seguindo o exemplo dos meus mestres, também pretendo trocar as subidas ao palco por novas aventuras e virar bicho do mato, para plantar hortinhas, aprender a cozinhar em fogão a lenha, fazer compotas de frutas, escrever livros, aprender chinês… isto não significa que vou deixar de gravar discos e, se a grana for compensadora, até faço um showzinho aqui e ali.

Em entrevista a uma rádio carioca em 1979 (no lançamento do LP “Mania de você”), você e Roberto diziam que o pequeno Beto – então com dois anos de idade – levava jeito para a música, cantava todos os sucessos etc. A suspeita se confirmou. E com Izabella? ela já dá sinais de que pode vir a trilhar o mesmo caminho dos pais e avós?
RITA LEE – Ziza Lee por enquanto tem demonstrado mais talento para a dança, ela faz umas piruetas que não dá para acreditar. As vezes penso que, na vida anterior, minha neta não teria se chamado Isadora Duncan?!

Todo artista que faz muito sucesso, rapidamente vira alvo de intrigas e fofocas. E com você não foi diferente – isto em um tempo onde os “paparazzi” não eram moda no Brasil e no mundo. Inventaram mil histórias, disseram que você tinha anorexia, leucemia… esta imprensa marrom te deu sossego, Rita?
RITA LEE – Talvez a imprensa marrom já tenha se amarelado um pouco e desistido de fazer o meu velório antes do meu cadáver aparecer.

Vejo muitos jornalistas por aí sempre perguntando a mesma coisa: “que momento de sua carreira você gostaria de esquecer?”. Então, quero propor o inverso: Rita, qual momento desses quarenta anos você considera inesquecível, o mais feliz, o mais vibrante?
RITA LEE – Foram vários, mas escolho a época da turnê “Lança perfume”.

Você já passou pela TV e pelo cinema, e sempre afirmou seu carinho pela dramaturgia – inclusive como consumidora compulsiva de novelas. Encarnou Raul, Bellatrix, Lita Ree, Gungun, Mabel, Regina Célia, Aníbal… qual personagem você ainda gostaria de interpretar?
RITA LEE – Imagino que eu faria muito bem o papel da filha de Dercy Gonçalves.

No próximo dia 25 você receberá o título de “Cidadã Honorária do município do Rio de Janeiro”. O que a “paulista branquela, sofredora corinthiana” está achando disso e, consequentemente, aguardando para esta homenagem?
RITA LEE – Meu, vou receber o Oscar das cidadanias que é o da cidadania carioca, é uma honra pra lá de Salvador Dali, certamente será um dia inesquecível na minha vida.

Neste 2007 de tantas novidades e outras homenagens (como a coleção da Rosa Chá), qual a mensagem que você gostaria de deixar a quem te acompanha ao longo destes 40 anos?
RITA LEE – São várias gerações de fãs… aos sessentões e cinqüentões, agradeço a fidelidade e a confiança de recomendarem minha música aos seus descendentes… aos quarentões e trintões, agradeço por apostarem em minha sobrevivência… e à juventude, agradeço pela curiosidade de ver uma múmia como eu ainda chacoalhar o esqueleto.